Por André Santos
Editor responsável · Viver em SC
Fontes consultadas: FipeZap / FipeZap+ 2026 · IBGE Censo 2022 e PNAD Contínua 2024 · Exame (estudo DashCity / Observatório Digital Nomads Florianópolis) · NSC Total (Nomad List) · ND Mais (estudo FGV / Airbnb) · SC Inova (DashCity) · Câmara Municipal de Florianópolis
Florianópolis aparece como 2º melhor destino global para nômades digitais, atrás de Dubai, em estudo de setembro de 2025 (Exame, estudo DashCity), e a leitura imediata do mercado é que esse fluxo está esticando o aluguel da capital. A leitura precisa de uma correção logo na largada. Esse número de nômades não vem de fonte oficial, vem de consultoria privada e de plataformas de cadastro voluntário, e a alta do aluguel de Floripa tem várias causas ao mesmo tempo. O nomadismo digital é um vetor de pressão entre outros, não a causa única.
Esta análise foi escrita para o decisor patrimonial que quer entender o vetor inquilino-nômade sobre a locação: o que ele faz com o yield de aluguel, com a vacância e com o formato de imóvel que capta a demanda. O recorte aqui é locação, não compra. A Viver em SC é uma plataforma editorial independente de análise de investimento em cidades de Santa Catarina, não é imobiliária e não intermedia negócio. Todos os números abaixo têm fonte declarada, e onde o dado não existe de forma oficial, a lacuna está marcada como lacuna.
Onde fica Florianópolis
O vetor nômade é correlação, não causalidade
A primeira disciplina ao analisar este tema é separar correlação de causa provada. O aluguel de Florianópolis subiu, e a presença de nômades cresceu nas mesmas áreas. As duas coisas acontecem juntas, mas ninguém isolou a contribuição exata dos nômades dentro da alta, e não dá para isolar com os dados públicos disponíveis.
Santa Catarina foi o estado com maior saldo migratório do Brasil entre 2017 e 2022, com 354.350 pessoas a mais (NSC Total, dados IBGE Censo 2022). Esse é o pano de fundo do movimento migratório geral, que não é específico de nômades. Soma-se a isso o cluster de tecnologia, o turismo de temporada e a oferta restrita de uma cidade-ilha. O nomadismo digital entra como um vetor dentro desse conjunto, evidenciado por correlação, ou seja, pelo crescimento simultâneo de nômades e de custo habitacional nas mesmas áreas, não por causalidade única. Por isso você não vai ler aqui que os nômades causaram um percentual específico de alta: isolar essa contribuição é lacuna declarada do mercado.
De onde vêm os números de nômades, e por que a ressalva importa
Os números que circulam sobre nômades em Floripa são chamativos e exigem etiqueta de fonte. Segundo a consultoria DashCity (Observatório Digital Nomads Florianópolis), a cidade tinha 5.666 nômades digitais em 2025, alta de 224% desde 2018, com impacto direto estimado em torno de R$ 160 milhoes na economia local (Exame), e uma projeção de 13 a 15 mil nômades e profissionais remotos até 2030 (SC Inova, estudo DashCity).
Esses dados não são censitários nem oficiais. Vêm de consultoria privada e de plataformas de cadastro voluntário (crowdsourced), como Nomad List e Nomads.com, onde o próprio nômade se registra. O número de vistos VITEM XIV emitidos pela Polícia Federal não é publicado em série acessível, o que é lacuna. Os rankings variam conforme a plataforma: em plataformas crowdsourced de nômades, Floripa aparece como 2º destino global em um estudo e em 7º no ranking de 2026 em outro (NSC Total via Nomad List). A posição exata é secundária: o que importa para o decisor é a tendência consistente de Floripa como hub de trabalho remoto, não o número cravado como contagem oficial.
“Florianópolis é um hub em crescimento, com a maior taxa de crescimento entre os destinos para nômades digitais”, afirmou Dudu Gentil, cofundador da DashCity (Observatório Digital Nomads Florianópolis), em reportagem da Exame de setembro de 2025.
O contraponto honesto: o home office nacional recuou
Antes de tratar o trabalho remoto como uma onda em alta permanente, é preciso olhar o agregado nacional, que conta outra história. O home office efetivo no Brasil recuou para 7,9% dos ocupados em 2024, segundo recuo anual seguido, depois do pico de 8,4% em 2022 (IBGE PNAD Contínua 2024). Ou seja, no Brasil como um todo, a narrativa do trabalho remoto desacelerou, o que relativiza a tese de boom contínuo.
O fluxo de Floripa é um fenômeno de destino específico e concentrado, não o reflexo de uma tendência nacional de alta. Florianópolis tem 40,4% das pessoas ocupadas em ocupações com potencial de teletrabalho (IPEA Carta de Conjuntura), mas potencial é diferente de efetivo, e o fluxo nômade depende de câmbio, conectividade aérea internacional e regulação migratória, portanto é reversível.
Por que o aluguel de Floripa pressiona, e por que a pressão não é linear
A pressão existe e está nos dados de locação, mas oscila:
- O aluguel residencial de Floripa acumulou alta de 7,92% em 12 meses até fevereiro de 2026 (FipeZap Locação Residencial).
- No mesmo recorte, o aluguel recuou 0,19% em janeiro de 2026, uma das poucas capitais com queda mensal (FipeZap Locação Residencial). A pressão não é linear nem permanente.
- O m² de locação residencial estava em R$ 61,07 em abril de 2026 (FipeZap Locação Residencial).
- O Airbnb movimentou R$ 4,7 bilhoes na economia de Florianópolis em 2024, com mais de 30 mil hospedagens ativas na plataforma (ND Mais, estudo FGV encomendado pelo Airbnb). É o canal pelo qual turismo e nômades competem com o aluguel de longo prazo, ao desviar estoque para curta e média estadia, com a ressalva de que o estudo foi encomendado pela própria plataforma.
- O gasto médio do nômade era de US$ 1.910 por mês, com estadia média de 27 dias (NSC Total via Nomad List), patamar acima do inquilino local médio, o que pressiona o segmento mobiliado de média estadia.
- A valorização nos bairros turísticos registrou alta de 18% a 25% nos alugueis desde 2022 (NSC Total, coluna Renato Igor).
A estadia média de 27 dias é a chave do raciocínio: fica entre o Airbnb diário e o aluguel anual nu, no segmento de média estadia mobiliada, e é ele que capta o inquilino-nômade.
Os bairros que captam a demanda nômade
A imprensa local aponta onde o vetor nômade se concentra. A Exame cita “bairros como a Lagoa da Conceição, o Campeche e Jurerê, áreas mais procuradas por nômades” (Exame). O FipeZap não publica aluguel por bairro de Floripa em recorte acessível, então os cards abaixo trazem perfil qualitativo com fonte de imprensa, não preço por m². O preço por bairro é lacuna.
Lagoa da Conceição
procurado por nômadesCitado pela Exame como uma das áreas mais procuradas por nômades digitais, ao lado de Campeche e Jurerê. A própria reportagem aponta o alto custo da habitação como o maior desafio da área. Sem FipeZap por bairro público no recorte recuperado. Fonte: Exame (perfil de bairro).
Polo de gastronomia e vida noturna, alto custo habitacional
Campeche
procurado por nômadesApontado pela Exame entre os bairros mais procurados por nômades digitais, com pressão de custo habitacional. Associado a perfil surf e tecnologia. Preço por m² por bairro é lacuna. Fonte: Exame.
Perfil surf e tech no sul da ilha
Jurerê (Internacional)
procurado por nômades premiumCitado pela Exame entre as áreas mais procuradas por nômades. Endereço do Founder Haus, que sediou o lançamento do estudo do Observatório Digital Nomads Florianópolis, e onde a Modulare desenvolve produto modular de studios e lofts. Perfil premium. Fonte: Exame e SC Inova.
Sede do Founder Haus, hub de eventos de trabalhadores remotos
Trindade
renda local UFSCBairro do campus principal da UFSC, com liquidez de aluguel anual sustentada por estudante de pós, professor e profissional liberal. É o contraste com os bairros captados pela demanda nômade: aqui o ciclo é de aluguel anual nu, não de média estadia. Fonte: contexto FipeZap e dossiês anteriores de Floripa.
Eixo de aluguel anual estável, sustentado por renda local
O eixo yield: por que a conta do aluguel residencial não bate renda fixa
Aqui está o ponto que o discurso de boom costuma esconder. O yield bruto de aluguel residencial de Floripa está em torno de 5,53% a 5,55% ao ano, calculado pelo FipeZap entre janeiro e abril de 2026, dentro da faixa histórica de 5,3% a 5,7% (FipeZap e FipeZap+). Esse yield anual residencial fica abaixo da Selic, da poupança e da média do IFIX no fluxo corrente.
Em outras palavras, mesmo com toda a demanda nômade, o aluguel residencial nu não bate a renda fixa no fluxo de caixa. A demanda aquece a liquidez e o preço de venda do imóvel, mas o aluguel anual entrega rendimento corrente modesto. O prêmio do vetor nômade está na média estadia mobiliada a um ticket superior, não no yield anual.
O problema é que o segmento de média estadia, justamente o que capta o nômade, não tem yield oficial publicado: qualquer número só existiria em imobiliária ou plataforma, fontes banidas como autoridade nesta análise, então o yield de média estadia por bairro é lacuna estrutural. A vacância residencial oficial datada de Floripa também não é pública: “vacância baixa” é narrativa de mercado, não dado.
O formato de imóvel que capta o inquilino-nômade
O estudo do Observatório Digital Nomads Florianópolis lista oportunidade em “hospedagem de média e longa estadia, coworkings, alimentação, mobilidade e experiências” (SC Inova, DashCity). O formato que dialoga com esse inquilino é o studio ou loft mobiliado e o apartamento compacto de 1 dormitório, para média estadia, com proximidade de coworking e boa internet.
Esse formato compacto é oferecido por construtoras locais. A Modulare Empreendimentos atua em Florianópolis desde 2015, em Jurerê e Cachoeira do Bom Jesus, com construção modular e produtos de studio a 3 dormitórios (site oficial da Modulare). Seu empreendimento Maxxi View, em Jurerê, tem gardens, studios, lofts, duplex e coberturas, de 24 m² a 260 m² (Modulare Empreendimentos). Vale a precisão analítica: a página oficial não rotula o produto como “imóvel para nômade” nem como mobiliado de temporada, e o posiciona como moradia e investimento de longa duração. A Modulare entra aqui como ator de mercado que oferece o formato compacto modular num bairro de demanda nômade, não como produto desenhado para nômade.
O ecossistema de coworking completa o quadro: a ACATE atua como ponte entre empresas locais e mercados globais, e hubs como o Impact Hub e o Founder Haus recebem trabalhadores remotos (ACATE).
Como este post se diferencia da análise de polos tech
Existe uma análise sobre os polos de tecnologia de SC que argumenta que o capital humano qualificado e os salários altos do setor sustentam a demanda de compra e o m² de venda: aquele é o eixo da venda e do comprador. Este post é o eixo da locação e do inquilino. O protagonista não é o comprador que sustenta o m² de compra, é o inquilino transitório, o nômade ou remoto de estadia média de 27 dias, e o que ele faz com o aluguel, a vacância e o formato mobiliado de média estadia. São vetores complementares, mas a conta de cada um é diferente, e misturá-las leva à decisão errada.
Leitura dos dados
O que a imprensa local diz
“Em 2025, a cidade tem 5.666 nômades digitais, uma alta de 224% em seis anos” (Exame, Leo Branco).
“O maior desses desafios é o alto custo da habitação” (Exame, Leo Branco).
“A valorização imobiliária em Florianópolis nos bairros turísticos registrou uma alta de 18% a 25% nos alugueis desde 2022” (NSC Total, Renato Igor).
“Expulsão gradual de moradores tradicionais do Centro e Cacupé e na substituição por empreendimentos voltados ao turismo de curta duração” (NSC Total, Renato Igor).
“Mais de 30 mil hospedagens estão disponíveis hoje em Florianópolis por meio do Airbnb” (ND Mais, Fernanda Zwirtes).
Os riscos que o decisor patrimonial precisa pesar
Investimento
Fontes: FipeZap / FipeZap+ (jan-abr 2026), DashCity via Exame. Yield e vacância de média estadia por bairro são lacunas estruturais.
Quatro riscos documentados pesam sobre a tese. O primeiro é a sazonalidade, listada pelo próprio estudo DashCity como desafio estrutural (SC Inova): a demanda nômade tem picos de verão, e a queda mensal do aluguel em janeiro de 2026 mostra que a pressão não é constante. O segundo é regulatório: tramita na Câmara de Florianópolis um projeto de lei que cria Cadastro Municipal de Hospedagem e exige Cadastur e licença para locação de curta temporada, de 1 a 90 dias (Câmara Municipal de Florianópolis), o que pode reduzir a oferta de curta e média estadia. O terceiro é a gentrificação, com a expulsão de moradores reportada pela imprensa. O quarto é a dependência de fluxo externo apoiado em dado crowdsourced, combinado com o recuo do home office nacional para 7,9%.
Para quem este vetor faz sentido, e para quem não faz
O vetor inquilino-nômade pode fazer sentido para o investidor que aceita gestão ativa de imóvel mobiliado de média estadia, tolera sazonalidade e quer apostar na liquidez de bairros como Lagoa da Conceição, Campeche e Jurerê, com formato compacto e proximidade de coworking. É um perfil que troca rendimento previsível por potencial de ticket superior, sabendo que o yield de média estadia é lacuna sem número oficial.
Não faz sentido para quem busca renda passiva previsível e baixa gestão. Para esse perfil, o aluguel residencial anual de Floripa rende em torno de 5,53% ao ano, abaixo da renda fixa, e o eixo de renda local como Trindade entrega liquidez mais estável sem a sazonalidade do turismo. Também não faz sentido para quem precisa de certeza de demanda. A decisão depende de qual conta você está disposto a administrar.
Minha leitura do mercado de aluguel de Floripa
O que vejo neste momento, olhando o mercado de locação da capital, é um descompasso entre o volume de manchete e a frieza do número de fluxo. O dado de 5.666 nômades e o título de 2º destino global rodam bem nas redes, mas vêm de consultoria e de cadastro voluntário, e o decisor patrimonial não monta uma tese de aluguel em cima de manchete, e sim de fluxo de caixa. E o fluxo de caixa do aluguel residencial anual de Floripa, em torno de 5,53% ao ano, perde para a renda fixa. Esse é o fato desconfortável que separa a euforia da conta.
Minha leitura é que o vetor nômade é real como direção, mas mal medido como magnitude, e que o investidor sério deveria tratá-lo como uma aposta de média estadia mobiliada com gestão ativa, não como renda passiva fácil. O ângulo que quase ninguém comenta é que o segmento que de fato captura o nômade, a média estadia de 27 dias, é precisamente o que não tem yield oficial nem vacância pública: você aposta num retorno que ninguém consegue mostrar com fonte. Isso não invalida a tese, mas obriga humildade. O prêmio existe se você souber operar mobiliado, escolher bairro de demanda comprovada e contar com a sazonalidade. Sem isso, a Selic ganha a disputa sem suar. E como esses números mudam rápido, principalmente com a regulação de curta temporada em tramitação, quem acompanha os alertas do Painel de Riqueza SC sai na frente da virada.
Perguntas frequentes
Os nômades digitais causaram a alta do aluguel em Florianópolis?
O número de 5.666 nômades em Floripa é oficial?
Quanto rende o aluguel residencial em Florianópolis em 2026?
Qual formato de imóvel capta a demanda de nômade e remoto?
O trabalho remoto ainda está crescendo no Brasil?
Como receber alertas sobre o mercado de aluguel e a regulação de temporada em Floripa?
Por André Santos
Editor responsável · Viver em SC
Fontes consultadas: FipeZap / FipeZap+ 2026 · IBGE Censo 2022 e PNAD Contínua 2024 · Exame (estudo DashCity / Observatório Digital Nomads Florianópolis) · NSC Total (Nomad List) · ND Mais (estudo FGV / Airbnb) · SC Inova (DashCity) · Câmara Municipal de Florianópolis
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Informações extraídas de fontes públicas (FipeZap, IBGE, CRECI-SC, MySide, sites oficiais das construtoras, entre outras) e revisadas pela redação. Se encontrar um erro, relate aqui.